O pesquisador português Fernando Catroga,Historiador e Professor da Universidade de Coimbra, fala sobre a morte e a relação que ela estabelece com a memória, as artes e com a própria História.

Amanhã, durante o projeto Divinas Palavras, o senhor deve falar de seu livro “O Céu da Memória”. Nele, o senhor afirma que “nunca, como hoje, se está tão pouco preparado para morrer”. Gostaria que começasse desenvolvendo esse pensamento.

O que quis dizer é que nunca se é demasiadamente velho para morrer. Tenho dúvidas de que se pensava assim em uma sociedade pautada pela desvalorização da vida, numa lógica autossuficiente e autônoma como era durante a Idade Média. A morte era esperada. Foi a sociedade ocidental, com seu otimismo, entre os séculos XVII e XVIII, com a sua ânsia em compreender a natureza humana, a natureza social do homem e com o advento da medicina que fez esse pensamento mudar.
A História é um culto aos mortosHoje, já não se espera pela morte. Essas transformações nos levaram a julgar que somos, não diria imortais, mas amortais. Sobretudo a partir da crença de que a medicina pode adiar a morte, de que talvez, em alguns anos, se encontre um suposto elixir da longa vida que possa superar, impedir a morte. Nesse sentido, um fenômeno que vivemos hoje e que está relacionado a isto é a hospitalização da morte. Hoje se morre muito mais em hospitais do que em casa. Tudo isto torna mais premente essa ideia de que a morte chega sempre prematuramente.

Em uma sociedade de relacionamentos cada vez mais velozes como a nossa, os ritos de morte, o luto, a busca por consolo, também se tornaram mais rápidos? Quer dizer, o ser humano contemporâneo consegue e ainda deseja dedicar seu tempo à morte como antigamente?

Na verdade, não. Pode-se considerar que o que vivemos hoje é uma crise da expectativa, a crise da memória. Se na idade moderna vivemos a aceleração e a seleção do tempo, na contemporaneidade vivemos a aceleração da aceleração do tempo. Portanto, não julgo que estamos a jurar o esquecimento, mas um gradual enfraquecimento da memória, um gradual enfraquecimento do aspecto histórico de se relacionar com a memória e, no caso da morte, com o culto dos mortos. E, nesse sentido, eu diria que uma das principais características do remodelamento do culto aos mortos está relacionado à identificação da sepultura, do morto, da imagem do morto, que antes se priorizava a fim de garantir a existência, de se matar a morte. Isso mudou, inclusive essa perspectiva plástica, principalmente depois que a igreja permitiu a cremação, dando a ela uma equivalência à inumação, ao enterro. Antes, eu diria que esses cultos dos vivos eram feitos para a salvação dos mortos. Hoje, esse culto é feito de outra forma e com uma duração outra, inclusive. A memória dos mortos pode ser perpetuada pelas novas tecnologias memoriais, o vídeo, a fotografia. E, essencialmente, numa sociedade de vive a aceleração da aceleração do tempo, os custos financeiros e de tempo interferem na manutenção do modo tradicional de se cultuar os mortos. Não tanto porque os vivos deixaram de amar os seus mortos, já que quando o outro morre, morremos também um pouco, mas porque há outros meios de garantir a preservação e porque isso tem um custo financeiro e de tempo. Eu diria que esta contemporaneidade implicou na falta de tempo para viver e também para se dedicar aos mortos.

Pode-se exemplificar esse fenômeno das novas tecnologias garantindo a preservação da memória e da imagem dos mortos com os perfis de pessoas falecidas que permanecem ativos nas redes sociais e se transformam em verdadeiras lápides, correto?

Sim, com certeza. É a prova do que estou a dizer, as novas tecnologias provocam um deslocamento, aliás, como uma espécie de regresso ao culto dos mortos nos lares, os mortos que eram velados em solo pátrio, na casa dos pais. Neste caso, velados virtualmente, em um solo “particular”.

E como as linguagens artísticas se relacionam com o culto aos mortos?Acho que esta relação fica bastante evidente, por exemplo, na cultura mexicana, não?

Sim, a cultura mexicana promove uma dramatização da morte. É um fenômeno interessante, uma espécie de reinvenção da influência barroca que veio com os espanhóis. A verdade é que as ligações são muito íntimas. Arte, memória e morte. Essa não é a minha especialidade, mas podemos pensar um pouco sobre isso, já que está muito relacionada com a estrutura, a arquitetura cemiterial, tema que estudei com mais propriedade. A arte funerária, sobretudo aquela que as elites vão experimentar, aquela produzida para os que tinham o privilégio da individualização do estereótipo do morto (a elite, o clero), essa arte se distingue sobretudo pela monumentalização. Aliás, monumento não é aquilo que é grande, mas aquilo que é feito para ser lembrado. Por exemplo, nas sociedades principalmente romanas e gregas, a construção das cidades influenciava e também era influenciada pela arquitetura funerária. Um exemplo eram as grandes estátuas. Na época contemporânea já, os cemitérios eram construidos como formas de expulsar os mortos do interior das igrejas. É desta época o surgimento de uma ideia higienista, de mortos como ameaça aos vivos. Então, o espaço dos cemitérios, inicialmente, foi criado como uma cidade dos mortos feita do zero. E havia uma proposta retilínea, de igualdade cristã. Mas, ora, o modo de representar a memória dos mortos não é socialmente neutro. Então, existe, sim, na constituição dos cemitérios, uma influência e uma inspiração na cidade dos vivos. Assim como existem mausoléus e grandes construções na cidade dos vivos, existe a lápide exuberante e a vala comum na dos mortos. Em resumo, quais são as características, então, desta arte funerária: ela é essencialmente mimética, é a imitação da imitação porque é um campo de distinção e de conquista simbólica. As sepulturas são como livros genealógicos. Em segundo ponto, devido ao espaço que ocupa, é uma arte de miniaturização. As sepulturas são como casas, mas não se vai construir uma casa dentro dos cemitérios, assim como as capelas, que também são representadas em tamanhos menores. E, em terceiro lugar, a arte funerária tende a ter um caráter revivalista. Portanto também é mais ligada aos signos do “neo”, o neogótico, o neoclássico. E, por fim, creio que, de certo modo, este tipo de arte acaba valendo mais como conjunto.

Ou seja, se retirada do contexto dos cemitérios, ela talvez não seja levada em consideração ou perca a alcunha de arte?

Exatamente. Dificilmente uma experiência artística no campo da arte funerária é vista como arte fora deste espaço. A não ser quando uma peça funerária é retirada daquela gramática em que foi concebida e seja transferida para um museu, ao lado de peças de outras origens, por exemplo. Pelas características pedagógica e subjetiva dos museus, ali elas mantêm sua validade simbólica.

E qual seria o papel das religiões no culto aos mortos?

Há uma relação intrínseca entre as religiões e a chamada perspectiva escatológica. Isto tanto para os muçulmanos quanto para o cristianismo ocidental. Por um lado, as religiões tem um papel importante no culto aos mortos, mas é bom lembrar que, por outro lado, existiram os exageros. Por muito tempo, a dimensão eclesiástica promoveu a difusão da mensagem religiosa como uma mensagem ligada à morte. Isso aconteceu sobretudo na Idade Média. Ora, após o Concílio Vaticano II principalmente, percebe-se uma transformação nos ritos funerários e no próprio conteúdo da última missa, em que a mensagem religiosa passa a ser voltada para o enaltecimento à vida. Sim, porque sem a morte não há preservação da vida. E esse pensamento surgiu, de certo modo, tardiamente e está diretamente ligado ao modo como a sociedade passou a lidar com a morte.

Pode-se considerar que o senhor seja um dos pesquisadores pioneiros no estudo deste tema em Portugal. Como suas pesquisas lhe levaram à relação entre memória e morte?

Eu diria que parti de outros temas, um deles foi o positivismo. Estudei o positivismo em Portugal e também um pouco no Brasil. Aliás, o positivismo de Auguste Comte (filósofo francês, 1798-1857) não deixa de ser uma justificação do valor cívico do culto aos mortos. Permaneci, desde que abandonei a Economia para cursar Filosofia e depois História, orientado pelo campo das ideias filosóficas e políticas. Então, estudei como essa vertente do positivismo era um sintoma da reestilização do culto aos mortos e, inclusive, da arquitetura dos cemitérios, do pensamento dos cemitérios como museus, como lições para os vivos. Essa foi uma das linhas que pesquisei: a revolução cemiterial em Portugal, isso na década de 1980, quando, aliás, não havia quase nenhuma literatura disponível sobre o assunto. E essa foi uma das razões. A segunda foi que, com o tempo, descobri: o que é o historiador senão um cultuador dos mortos? O que é, em última análise, a História senão uma prática ressuscitadora daquilo que já não existe? A História revisita o passado assim como os vivos revisitam seus mortos, não por uma intenção meramente passadista, mas para dar uma nova vida àquele passado que está irremediavelmente proibido. E, portanto, a historiografia é, a sua maneia, o culto aos mortos.

Fonte: Diário do Nordeste – 29/09/2012

Reporter: Mayara de Araújo